Eles retomaram o trabalho. Sob as ameaças, a sujeição, o medo. A maioria deles nem sequer conseguiu descobrir se havia conquistado alguma melhora nas suas condições em conseqüência dos cinco, nove, e até mesmo onze dias de greve que empreenderam nos canteiros de construção de Dubai.
Assim como soldados conformados, eles voltaram a trajar o seu uniforme de canteiro, para erigir torres sempre mais altas, e estâncias costeiras extravagantes. O emirado e os promotores respiram, aliviados. Mas, para os 700 mil operários oriundos da Índia, do Paquistão, de Bangladesh ou do Sri Lanka, as condições de vida e de trabalho não mudaram, ou muito pouco, o que justifica, para as associações de defesa dos direitos humanos, que a sua condição seja descrita como um caso de "escravidão moderna".
Quantos deles chegaram a participar da greve? Foram dezenas de milhares, sem dúvida alguma. Mas é impossível obter um número preciso. O Estado e os empregadores recusam-se a divulgar toda e qualquer informação sobre os conflitos que vêm ocorrendo, enquanto a inexistência de sindicatos (que são proibidos nos Emirados) contribui para tornar o sistema ainda menos transparente. Nesse sentido, foi com muita dificuldade que o diretor geral da Arabtec, uma enorme companhia da construção civil, admitiu, em 12 de novembro, que os 40 mil operários da sua empreiteira haviam retomado o trabalho, após terem obtido um "justo" aumento de salário que lhes permitiu compensar a fraqueza do dólar.
Diante desta situação, a imprensa não proporciona qualquer ajuda. Ela limita-se a repercutir os comunicados da agência de notícias oficial (WAM) ou da polícia local que, na véspera, havia anunciado a expulsão de 200 grevistas, acusados de terem fomentado manifestações violentas.É preciso visitar os canteiros de obras para se ter uma idéia das angústias que enfrentam esses operários imigrantes, que chegaram a sonhar com Dubai como um eldorado. Para transformar o seu sonho em realidade, contraíram dívidas pesadíssimas, para pagar seus vistos, além da viagem e do serviço de recrutamento prestado por agências que geralmente são ilegais.
Hoje, eles vêem as suas ambições reduzidas a migalhas, neste canto de deserto que se tornou, dependendo do ponto de vista, uma nova Las Vegas para quem é turista, ou um cárcere de trabalhos forçados para quem é pedreiro. Rajee, 24 anos, chegou da província indiana do Kerala há 18 meses. Dubai representava o seu sonho mais absoluto. Na sua aldeia, todas as famílias tinham pelo menos um parente que havia tentado esta aventura, enquanto três dos seus primos haviam trilhado este caminho antes dele. Dois deles retornaram dentro de caixões. O primeiro foi esmagado por uma laje de concreto de uma torre em construção. O outro se enforcou no ventilador do seu dormitório. O terceiro retornou à aldeia como se ele fosse o vencedor de uma batalha. Ele forneceu o dote para as suas duas irmãs, casou-se e instalou-se como dono de uma oficina de automóveis. Rajee fez dele o seu herói. "Para ser rico um dia, nada como tentar a sorte em Dubai!", diz. "Bem, isso é o que eu acreditava!".
No exercício da sua profissão de pedreiro, ele ganha entre 550 dirhams (cerca de R$264) e 750 dirhams (R$360), dependendo do mês. Ele costumava enviar dois terços do salário para os seus pais, contentando-se com o mínimo para suas refeições, que ele mesmo prepara, e utilizando o menos possível o telefone celular. Mas este equilíbrio precário foi rompido. O custo da vida não pára de aumentar - "o saco de arroz passou no espaço de poucos meses de 60 para 95 dirhams (R$28 para R$45); além disso, o pão aumentará em 20% em 20 de novembro!" - enquanto o dirham, atrelado ao dólar, segue em sua queda constante.Foi por estas razões que ele fez greve. Esperava obter um aumento de 200 dirhams (aproximadamente R$95), mas o que ele conseguiu de fato foi um acréscimo de 100 dirhams apenas, segundo as informações que ele diz ter recebido. Para tanto, ele se esforçou a resistir ao longo de nove manhãs aos chamados insistentes dos vigilantes da Arabtec, que costumam pressionar os operários a se apressarem para entrar nos microônibus que, às 4h30, os conduzem até os canteiros.
É por isso, finalmente, que hoje ele está tomado por uma raiva incontrolável, aborrecido pelo desprezo arrogante demonstrado pelo seu empregador e revoltado pela intervenção, em 3 de novembro, da polícia, que cercou a parte do acampamento onde estão hospedados os operários da Arabtec, os obrigou a subirem nos ônibus, e acabou prendendo entre 200 e 400 trabalhadores recalcitrantes. Será que eles ainda estão encarcerados? Será que eles vão ser enviados de volta para os seus países? Rajee não tem a menor idéia. De canteiro em canteiro, os testemunhos são os mesmos. Todos acusam os salários irrisórios, o confisco sistemático de passaportes e o poder absoluto do empregador sobre o visto de trabalho; todos eles denunciam a distância e insalubridade dos conjuntos habitacionais-dormitórios, ou ainda, o pânico vivenciado diante das dívidas acumuladas para estar aqui em Dubai, e todos os anos que foram assim hipotecados, tão longe da família.
Tudo isso, sem mencionar os acidentes, o isolamento, as tentativas de suicídio (84 casos foram recenseados, segundo o consulado indiano, em 2005) e as inúmeras prisões, que ocorrem a cada greve."Medo de uma rebelião" "Os habitantes dos Emirados Árabes Unidos estão cientes de tudo o que eles devem a esta população de imigrantes que estão construindo as suas cidades e tornam possível a inacreditável expansão econômica da região", analisa Sharla Musibih, que fundou a City of Hope (Cidade de Esperança), uma organização que oferece abrigo para as mulheres em situação de desamparo. "Mas eles estão também obcecados pelo fato de que os trabalhadores imigrados formam mais de 85% da população total e 99% da força de trabalho privada. Vocês conseguem imaginar a dependência que o Estado tem deles? O seu medo de uma rebelião?"Alertado pelo relatório acusador que havia sido publicado em 2006 pela organização Human Rights Watch sobre o destino reservado aos operários da construção civil no país, o emir de Dubai, o xeque Mohammed bin Rashid Al-Maktoum, havia encarregado o seu ministro do trabalho de melhorar a situação. A partir de então, algumas poucas decisões acabaram se transformando em mudanças concretas, só que muito distantes das expectativas.
Contudo, as greves recentes, além da anistia que foi oferecida durante três meses aos trabalhadores em situação irregular, e que resultou concretamente em mais de 171 mil partidas do país, deixaram o governo preocupado e colocaram novamente na ordem do dia duas reivindicações dos operários: a definição de um salário mínimo e a autorização para a criação de sindicatos. Uma idéia que, até então, era considerada como polêmica demais, mas em relação à qual o ministro do trabalho, Ali bin Abdallah Al-Kaabi, acaba repentinamente de afirmar que ele não se opõe mais à sua aplicação. "A princípio", conforme o diário "Gulf News" intitulou prudentemente sua manchete.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
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Fontes: Le Monde/UOL
Colaboração: Edeni Angelo Cereda














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