terça-feira, 20 de novembro de 2007

Minas Horizontina, a primeira criança nascida em Belo Horizonte após sua inauguração


Numa animada e colorida festa, iluminada em grande parte pela luz da lua cheia, em meio às crianças agitadas e adultos vestidos com suas melhores roupas, destacava-se o ventre enorme de uma mulher grávida.Era 11 de dezembro de 1897 e os habitantes do Curral del-Rei já antecipavam as comemorações pela criação da nova capital de Minas Gerais, que no dia seguinte passaria a se chamar Belo Horizonte.

Apesar da barriga já bastante pesada, a italiana Angela Coracci não sabia que daria à luz, em plena festividade, ao primeiro bebê registrado na então capital. Já não suportando as dores do parto, auma hora da manhã do dia 12, nasceu uma bela menina. Tudo isso numa cafua (habitação pobre) e com auxílio do carinhoso e já traquejado com a situação, o marido Luigi Cânfora.

Em homenagem ao grande acontecimento da região, a criança foi batizada e registrada no primeiro cartório como Minas Horizontina. Era já a quinta filha do casal de italianos. A mãe, que na intimidade era chamada de Dona Santina, já cuidava do quádruplo Elvira, Alfredo, Dora e Itália. Depois de Minas Horizontina, viriam ainda Yolanda e,finalmente, encerrando a produção, Luiz.

Se atualmente criar um filho já é bastante trabalhoso, imagine sete, numa época onde tudo era mais difícil de se conseguir, tendo ainda um grande complicador - a língua desconhecida. Foi com pulso firme e o sangue persistente de italiano que Dona Santina conseguiu criar a todos com dignidade.Toda a história é confirmada pelas netas que ainda moram em Belo Horizonte: as irmãs Anete, 81 anos, Maria de Lourdes, 80, e Maria da Conceição, 77, D'Avila, filhas de Yolanda, já falecida; Raquel Faucci,74 anos, filha do caçula Luiz, que também já morreu; e Diva de Vicente, 80 anos, filha de Itália, a quarta de Dona Santina.

As netas contam que a avó era brava, controlava tudo da janela de casa, uma típica "mama italiana". "Criou os filhos com muito rigor,nada podia sair de seu controle. O mesmo acontecia com os netos. Vovóera fantástica", lembra Raquel Faucci. Foi na casa desta neta que Dona Santina viveu até o fim da vida. "Vovó era agarrada ao meu pai, o caçula. Não o largou nem quando ele se casou", gaba-se a neta.

Os quatro primeiros filhos nascidos na Itália não chegaram a ser amamentados pela "nona". Como costume da época, na classe média, assim que o filho nascia era entregue à ama de leite, geralmente camponesas que moravam nos arredores de Roma. Aos domingos, após a missa, Santina visitava a criança levando mantimentos.As descendentes revelam que Angela Coracci nunca se acostumou no Brasil por ter visto sua qualidade de vida cair. Na Itália, era governanta do príncipe Giustiniano, falava também o francês e vivia em palácios. Casou-se com Luigi Cânfora, que era um carabiniere da guarda real. Com o sonho da terra prometida, o marido vendeu tudo o que tinha e, juntamente com a mulher e os quatro filhos, embarcou no navio com destino ao Brasil.

Em terras tropicais, veio para Belo Horizonte, onde tornou-se pintor.O casal morou por muito tempo em um acampamento destinado aos imigrantes. A matriarca se desdobrava para deixar limpo os lençóis e os filhos perante toda a terra da construção da nova capital. Depois mudaram-se para uma casa, onde hoje é o Bairro Carlos Prates,mudando-se depois para a Serra. "Vovó costurava para fora e também fazia doce para ajudar no sustento da casa. Apesar da vida dura, das crianças para cuidar, nunca perdeu a elegância. Não deixava de usar nem mesmo os apertados espartilhos", conta Anette.

A primogênita de Belo Horizonte, Minas Horizontina Cânfora Pacheco,que morreu aos 88 anos, teve cinco filhas: Ivone, Alix, Sônia, Lourdese Ruthe. Hoje, apenas a filha do meio está viva. É Ivone Pacheco MonteVerde, 79 anos. Carioca, ela conta a árdua vida que teve sua mãe,chegando a passar necessidades junto com as filhas.As sobrinhas contam que Tia Mina, como era chamada, casou-se novinha,por volta dos 16 anos, com o motorista da única ambulância de Belo Horizonte. Generoso, Pacheco era do Rio de Janeiro e logo resolveu abandonar as montanhas e retornar para o mar.

"Eu e minha mãe íamos muito visitar Tia Mina no Rio. Ela morava em Vila Izabel. Morria de saudades de Belo Horizonte e sempre teve vontade de voltar. Só não retornou porque achava que mãe tem que ficar do lado dos filhos, e estes já estavam com a vida encaminhada por lá", lembra Maria da Conceição D'Ávila. A família revela que Dona Santina nunca quis o casamento da filha com o motorista, e vivia preocupada com a situação de Mina na capital fluminense.Ivone Pacheco conta que a mãe era muito calada e, apesar da vida difícil, criou os filhos com muito rigor e carinho.

"Como não tínhamos dinheiro, ficávamos muito em casa. No domingo, a diversão era ir ao circo ou à pracinha", lembra Ivone Pacheco. Sua prima, Anita de Paoli França, 88 anos (filha de Elvira, a mais velha de Dona Santina), conta que lembra muito de Mina. "Quando mamãe era viva, nosso contato era muito grande. Quando ia ao Rio, ficava na casa de Mina", lembra Anitade Paoli.Depois que mudou para o Rio de Janeiro, Minas Horizontina veio poucas vezes a Belo Horizonte. Chegou a ser homenageada na capital mineira e teve sua história contada na revista Cruzeiro. "Ela ficou na esperança de ganhar algum terreninho na capital, como havia sido prometido, mas isso infelizmente nunca aconteceu", lamenta a filha.

Fonte: Extraído do jornal "Hoje em Dia", sobre a primeira criança nascida na cidade de Belo Horizonte, após sua inauguração. Jaqueline da Mata - Repórter
Foto meramente ilustrativa

Colaboração: Stanley Santos de Souza, Belo Horizonte - MG

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