sexta-feira, 3 de abril de 2009

O italiano que está em você

O que parece tudo igual, às vezes é tudo diferente. Os 57 milhões de italianos territoriais, e 60 milhões de italianos mundiais, expressam igual número de diferenças, dependendo da abordagem.

Vêneto? Sardo? Italiano? Tudo ao mesmo tempo?

Mariano Paludo, da Sardegna, assim expressa seu eu italiano:

Vivo ma cidade de Cagliari, capital da Sardenha, onde trabalho como químico analista nos laboratórios do Hospital Universitário. Tenho 47 anos e há 25 sou casado com Maddalena, que é da mesma idade que eu. Temos dois filhos: Stefania, que vai completar 25 anos, e Marco, que vai fazer 22. Não existe somente uma italianidade; um só modo de se apresentar ou de enfrentar um problema à italiana não existe. É mais simples pensar em um número par, se não superior ao número dos italianos, de se referir a um problema ou a um fato. Nós italianos somos assim: fundamentalmente narcisistas, se nos vê- em com olhar crítico, elegantes se com olhar benevolente, pródigos ou generosos, simpáticos ou intrometidos, estetas ou superficiais, devotos ou hereges, exagerados sempre. Vejo em mim essa indefinível italianidade, mas, enfim, qual será a italianidade do filho de um emigrado vêneto e de uma sarda?

A Sardenha é uma ilha com uma cultura própria, influenciada por uma longa dominação de povos que se instalaram, por bem ou por mal, num território pouco habitado por gente belicosa e rude, dedicada sobretudo ao pastoreio. Fenícios, cartagineses, romanos, vândalos, bizantinos, árabes, pisanos, genoveses, catalães, aragoneses e piemonteses tentaram de todas as maneiras impor as suas divindades, os seus santos, a sua língua e as suas leis. Uma violência cultural que marcou profundamente o seu povo sardo, mas não no orgulho, e um sardo, um verdadeiro sardo, deve ser um pouco Balente, valoroso. Os Sardos, mesmo nas suas particularidades insulares, pertencem à família dos italianos, embora com a distinção especial que os faz sentir diferentes.

É verdade, os sardos se sentem diferentes dos outros italianos, no fundo melhores, mas esse sentimento de auto-estima é comum a todos os 57 milhões de italianos. Sardos e italianos, uma união difícil de romper; povo orgulhoso e individualista, faz pensar em Martino, o Jovem, príncipe de Aragão, que definiu os sardos depois de vencer a batalha de Sanluri, que lhe deu o controle da ilha: “Poços, locos Y mal unidos". Não obstante, Martino, o Jovem, se apaixonou por uma dama sarda, chamada. “A bela de Sanluri” e morreu de malária dois anos depois da conquista da Sardenha e da dama. Irritantes e passionais, convencidos e orgulhosos, devotos a Deus, à Virgem e aos Santos como só um latino pode ser, assim são os sardos ainda hoje.

Outra característica que os italianos não podem esconder é a solidariedade, e os sardos - como italianos coerentes, fizeram da solidariedade uma religião. Um exemplo que demonstra esse elevado sentimento é o comportamento dos pastores de uma cidadezinha sarda quando um conterrâneo perde o seu rebanho: cada pastor se priva de uma ovelha jovem para refazer o rebanho do azarado, permitindo que sua família tenha uma vida digna.

Essa filosofia de vida me foi ensinada pelos meus pais e essa filosofia busco transmitir aos meus filhos: meu pai, como bom vêneto, me ensinou a cultura do trabalho, do fazer da responsabilidade e do sacrifício sem lamúrias; minha mãe sarda me ensinou a dignidade, o orgulho e o modo de encarar a vida com coragem. Este meu modo de ser italiano pode não ser original, mas é o fruto de uma educação feita de exemplos e não de hipocrisia. Acho que vou continuar a ser assim como me fizeram, com tantos defeitos e algumas qualidades, como tantos outros italianos, todos diferentes entre si, mas - no fundo - todos iguais.”

Após o pensar de Mariano, fica a pergunta:
Quais os aspectos em que nós, italianos, somos todos iguais?

Frei Rovílio Costa
Texto publicado na Revista Insieme set. 2002, p. 30-1

Colaboração Mirna Lanius Borella Bravo- Porto Alegre - RS

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