Nem brasileiro, nem italiano é o título que o professor e escritor Eugênio Pedro Giovenardi, gaúcho, atuando em São Paulo, dá ao texto que o leitor terá o prazer de ler a seguir. É uma afirmativa que cada um dos sessenta milhões de descendentes no mundo poderiam fazer a partir de seu país. É a Itália dentro do mundo, e o mundo dentro da Itália no Mundo. Escreve Giovenardi:
“Na França, meus colegas de universidade pensavam que eu fosse suíço. Menos mal que existe uma Suíça italiana ao lado da alemã e da francesa.
Nos controles de passaporte, em aeroportos brasileiros, fiscais menos carrancudos e com alguma cultura geral soletram o sobrenome e arriscam: “de origem alemã, americana?” – “Não, italiana”. Ele concluía, talvez, que a fisionomia tivesse a ver com a Floresta Negra da Baviera ou com descendentes da máfia de Boston.
E quando na Itália, perseguindo minhas origens, apresentei-me como brasileiro, neto de imigrantes modeneses, um gesto de desconfiança e um sinal de interrogação cobriam o rosto dos interlocutores.
– Ma, lei parla italiano.
Sim, estudei italiano, como estudei português para falar e escrever. Meus sentimentos sempre estiveram entre o italiano e o brasileiro. Estou sempre entre os dois. Sou uma camada em transição na qual se confundem percepções e sentimentos. Não posso dizer que tenha uma língua pátria ou materna. Em casa, falava-se um misto das duas. Por isso, eu estudei e aprendi a falar ambas. Minha filha e minhas netas, porém, aprendem a falar o idioma português sem estudá-lo. Mas a língua italiana, como o amor à música, os rompantes exagerados, a gesticulação que, muitas vezes, é mais abundante do que as palavras para exprimir os pensamentos, o entusiasmo que passa do riso às lágrimas sem compasso de espera, tudo está no sangue, tudo fica registrado nos arquivos genéticos. E, de repente, a gente se sente italiano diante de Rafael, da Vinci, Michelangelo. As culturas são a marca da identidade dos povos, não se destroem mesmo quando eles desaparecem. A cultura original reaparece, ressurge e, às vezes, se impõe na entoação da voz e das palavras, no gosto artístico, na organização familiar, no quadro da parede, no desenho da casa, na receita culinária. Eu nasci na cultura italiana imersa na placenta de uma outra cultura nascente.
As culturas convivem sem se confundir, nem se fusionar. Alemães e italianos têm marcas profundas no sul do país. Penso que o mais significativo traço de identidade, o que me leva instintivamente às origens de minha existência cultural, sem ambigüidades, é o sobrenome. Silva e Giovenardi são nomes que podem não fazer diferença para mim, mas certamente farão para o brasileiro. A dificuldade que terá em dizer meu nome dá-me um certo sabor real de excluído ou exilado. E o Silva estranhará ainda mais se, em minha janela, estiver hasteada a bandeira do Brasil quando o adversário do futebol for a Itália.
Por quê? Porque a brasilidade com sua música, seu samba, seus poetas, seus escritores, suas florestas misteriosas, seu mar de tantas cores, sua fragilidade, suas diferenças, suas desigualdades vai ocupando espaços da italianidade. Mas alguma coisa profunda, nebulosa, ressurgirá sempre no meu nome que nasceu nos confins da Emilia Romagna, no Ducado de Módena, na velha Etrúria, nos anos de 1579”.
Giovenardi aponta duas realidades culturais, esteios de sua identidade –, a italianidade e a brasilidade. São dois horizontes para olhar e viver o mundo, no prima do universo cultural.
Texto publicado na Revista Insieme, jan. 2003
Frei Rovílio Costa
Colaboração Mirna Lanius Borella Bravo, Porto Alegre, RS














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