sábado, 9 de maio de 2009

Ettora Scola só filma quando Berlusconi deixar o poder

Ettore Scola


Ettore Scola, 78 anos é um dos realizadores que melhor retrataram o pós-guerra e o desenvolvimento econômico dos anos 60 e 70. Foi premiado duas vezes no festival de Cannes e nomeado duas vezes para o Oscar do melhor filme estrangeiro. Alguns dos filmes dão a conhecer a Itália ao público europeu.

euronewsMuitos dos seus filmes contaram histórias que tinham como pano de fundo acontecimentos históricos importantes, de “Uma Jornada particular” a “Concorrência desleal”. Se, hoje, escrevesse um argumento, que acontecimento contemporâneo adoptava como ponto de partida?

Ettore ScolaA Itália, principalmente, nunca foi avara com os autores. Sempre foi fonte de inspiração de histórias, de personagens, porque não é uma sociedade banal, não é neutra, está cheia de defeitos, plena de valores negativos. Acho que, actualmente, faria um filme sobre a crise e também sobre os sismos que não são apenas acontecimentos naturais mas provocados por má gestão pública e má consciência dos construtores, dos empreiteirso. São temas interessantes para fazer um filme.

euronewsRecentemente disse: “Enquanto Berlusconi estiver no poder não farei filmes”.

E.S.“Na verdade…”

euronewsMas não seria melhor o contrário, quer dizer, exprimir as próprias ideias quando não se partilha a cultura da classe dirigente?

E.S.Infelizmente, um filme não é como um trabalho de escritor ou pintor, que podem dizer o que pensam, mesmo sem as contribuições financeiras a partir de fora, porque para eles, basta apenas uma tela, uma folha de papel. O cinema também é uma indústria. Entre outras coisas, como a imprensa e a televisão que Berlusconi já controla, mesmo o cinema, depende em muito dele. Então, tenho isso em conta, pois não sou tão presunçoso que possa pensar “Ah, minha voz tem de continuar a gritar, porque é necessária e indispensável”; prefiro que os jovens o façam. Eles fazem, começam a fazê-lo. Observo muitos jovens, principalmente assistentes. Agora é com eles.

euronews Várias vezes se falou de um filme que teria na gaveta…Chama-se “Um dragão em forma de núvem”, se não me engano. Uma ideia que terá agradado a Gerard Dépardieu. Vamos ver esse filme?

E. S.Não, porque esse filme deve ser feito com Gérard Dépardieu. Estávamos de acordo em tudo e o argumento estava feito, era lindo. Estava tudo pronto mas a produção devia ser de Berlusconi, portanto…Acredito que para poder trabalhar – pouco importa que tipo de trabalho – mesmo o carpinteiro deve ter um entendimento de harmonia com o cliente, deve sentir-se parte de uma família que cria qualquer coisa. Fazer algo contra a opinião de alguém não funciona muito bem.

euronewsFoi sempre um homem muito envolvido politicamente. Foi ministro da Cultura de um governo sombra, comunista. Acredita na Europa, ou já acreditou? Continua a acreditar?

E. S.Que seria hoje do nosso continente se nâo houvesse Europa ? Mesmo se continua a haver contrastes, penso que sem os elos europeus, sem a moeda única, a Europa já estaria acabada, cada país teria sofrido graves consequências. De facto, a União Europeia está a alargar-se porque os países compreenderam que, de facto, para progredirem, têm de o fazer em conjunto, colectivamente.

euronewsO cinema pode influenciar a política?Estou a pensar no filme “le Caïman” de Nanni Moretti e também em “Welcome” que provocou um grande debate em França, recentemente.

E. S.Não acredito que o cinema possa transformar a realidade ou modificar o que se passa. Também não acho que seja fácil modificar a política. Mas, pelo contrário, há algo que o cinema pode e essa é uma grande arma, que é interferir no pensamento das pessoas que vêem o filme. Quer dizer que o filme pode colocar questões ao público que de outra forma o público não colocaria, pode provocar dúvidas que não existiriam de outro modo. E essa função do cinema, na qual me reconheço inteiramente, pode modificar mentalidades.

euronewsO que faz mais mal ao cinema nos dias de hoje? A televisão, descarregar filmes ilegalmente na internet ou apenas os maus filmes?

E. S.Os maus filmes nunca serviram o ciinema. Talvez também o desprendimento com que os jovens realizadores retratam os próprios países. Consagram-se mais à autobiografia ou à imitação de outras culturas ou doutras linguagens. Procuram fazer filmes que possam passar na televisão, pois a televisão ajuda a produzir os filmes. Mas é preciso dizer que nos últimos anos, as coisas inverteram-se um pouco. Principalmente no cinema italiano, parece-me que os realizadores reencontraram o gosto e o prazer de retratar a Itália. Em filmes como “Il Divo” ou “Gomorra” e noutros que sairam , vê-se de novo o rosto da Itália no cinema.

euronewsNos últimos Óscares, “Slumdog Millionnaire” ganhou tudo. Pode ser definido como a nova geração do filme. Foi produzido pelos europeus mas é uma história à indiana, uma história de Bollywood. É talvez um caso de globalização do cinema ou da cultura cinematográfica. Acha que há riscos face a este fenómeno?

E. S.Os riscos inerentes à globalização….globalização que pode ter também objectivos nobres e úteis: igualdade, melhor distribuição das riquezas e das responsablidades. Mas também vamos assistir a um nivelamento, à manutenção de certas riquezas de um país relativamente a outro. É difícil dizer que “Slumdog” é um filme indiano. É um filme que conta uma história indiana, com personagens indianas mas com uma cultura europeia, anglosaxónica. Aqui, na minha opinião, funcionou bem. Mas não acho que reflicta uma cultura específica.

euronewsQue filme viu recentemente e que aconselha? Um filme que tenha gostado muito.

E. S.Infelizmente é um filme americano. Os filmes de Clint Eastwood sao cada vez melhores. pelo menos os quatro últimos são grandes obras.

euronewsGran Torino

E.S.Gran Torino. Mais do que a actuação, pois Clint é um actor esculpido na madeira, é a autoridade que tem como realizador, as atmosferas que escolhe, os ambientes, a escolha das iluminações psicológicas. Por isso, ele está verdadeiramente à altura, é genial.
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