sábado, 23 de maio de 2009

Suspeito de chefiar máfia italiana é preso no Brasil

Leonardo Badalamenti foi detido em São Paulo


Numa operação internacional contra o crime organizado, polícias de quatro países prenderam 20 pessoas acusadas de associação com a máfia e transações ilícitas, entre elas Leonardo Badalamenti, o suposto chefe do grupo, detido no Brasil. Badalamenti é filho de Gaetano Badalamenti, um dos antigos chefões da máfia siciliana, morto em 2004. A operação, chamada "Cento Passi", ocorreu simultaneamente na madrugada de sexta-feira na Itália, Espanha, Venezuela e Brasil, culminando com a prisão de 20 pessoas de nacionalidade italiana, acusadas de associação mafiosa, corrupção e fraude.No Brasil, agentes da polícia federal em colaboração com a Interpol, prenderam Badalamenti, 49 anos, em São Paulo, cidade onde morava segundo o procurador Vittorio Teresi, um dos coordenadores da operação.

"Badalamenti foi detido em São Paulo, diante de nosso pedido de prisão provisória para fins de extradição", disse Vittorio Teresi à BBC Brasil.

O tenente coronel Strada, da polícia de Florença, que participou das operações, afirmou que a polícia brasileira fez um excelente trabalho porque não era fácil encontrar Leonardo Badalamenti, que vivia na cidade com o nome falso de Carlos Massetti.

Títulos falsos
O grupo chefiado por Badalamenti é acusado de tentar negociar títulos de investimento falsos, através de agentes financeiros.

"Leonardo Badalamenti era um dos coordenadores destas operações, feitas para tentar negociar títulos falsos no circuito financeiro internacional através de algumas filiais do Banco da Venezuela nos Estados Unidos, na própria Venezuela e na Inglaterra", informou o procurador Teresi.

O grupo de mafiosos queria negociar títulos falsos da dívida pública venezuelana por um total de cerca US$ 1 bilhão, que poderiam garantir abertura de crédito em bancos de diversos países, entre eles o Lehman Brothers de Baltimore, nos Estados Unidos, além de uma filial do Shanghai Bank em Hong Kong e um banco inglês. Os institutos de crédito e os agentes financeiros, com base num atestado de depósito de papéis falsos garantido por um funcionário corrupto do Banco Central da Venezuela, deveriam autorizar o financiamento de centenas de milhões de dólares que seriam investidos em operações muito rentáveis.

Bloqueio
Segundo o magistrado, as tentativas de negociação de títulos falsos ocorreram entre dezembro de 2003 e abril de 2004 e não tiveram êxito porque o sistema de controle internacional dos bancos detectou algo de errado e bloqueou as operações.

"Fomos informados do caso porque, na época em que ocorreram, estávamos investigando as atividades das pessoas envolvidas".

Após a prisão de Leonardo Badalamenti, as autoridades italianas aguardam a decisão sobre sua extradição para a Itália.

Segundo o tratado de extradição, assinado pelos governos da Itália e do Brasil em 1989 e promulgado em 1993, após a prisão, ele deve permanecer detido à espera da decisão do Supremo Tribunal Federal. O caso da extradição de Badalamenti vai entrar na pauta do STF, que já tem o polêmico caso do ex-terrorista Cesare Battisti para examinar. A decisão pode levar alguns meses.

Leonardo Badalamenti é filho do "chefão" Gaetano, conhecido como Dom Tano Badalamenti, morto aos 81 anos numa prisão nos Estados Unidos, em 2004. Seu envolvimento com o tráfico de drogas ficou comprovado em 1984 através da operação "Pizza Connection".

"Conhecemos muito bem os Badalamenti", disse o procurador.

Gaetano Badalamenti era o "padrinho" da máfia siciliana até os anos 80, quando iniciou uma guerra pelo poder com o clã adversário dos "corleoneses", que venceram e assassinaram quase toda a família Badalamenti. Dom Tano fugiu para o Brasil e depois se transferiu para os Estados Unidos.
Mafioso italiano preso em SP vivia na região do Bixiga há 15 anos
O italiano Leonardo Badalamenti, de 49 anos, integrante da máfia siciliana "Cosa Nostra" preso na quinta-feira (21), vivia discretamente na região do Bixiga, na Bela Vista, centro de São Paulo, há 15 anos, mas só há 15 dias foi identificado e localizado, segundo a Polícia Federal. A representação brasileira da Interpol soube que ele estava no país depois que autoridades italianas obtiveram um mandado de prisão preventiva no Supremo Tribunal Federal, baseado em crimes pelos quais é acusado na Itália.De acordo com a polícia italiana, ele chefiava uma quadrilha que tentou fraudar bancos internacionais como o Lehman Brothers e o Bank of America, diretamente de São Paulo. A organização criminosa tentou obter empréstimos milionários, oferecendo como garantia títulos falsos da dívida pública venezuelana.

Comércio
Aos policiais federais, Badalamenti disse que era comerciante e que assessorava empresas em importações, mas ainda não há provas sobre o que de fato ele fazia. O mafioso italiano se passava por cidadão brasileiro e se apresentava como Carlos Massetti a comerciantes da região. Chegou inclusive a casar no Brasil, mas a polícia ainda investiga se a ex-mulher sabia qual era a verdadeira identidade de Badalamenti, de acordo com a delegada Patrícia Zucca, chefe da Interpol em São Paulo. Também deve ser investigado se o mafioso chegou a manter negócios e praticar crimes em território brasileiro. A delegada da Interpol acredita que o mafioso se refugiou na capital paulista por acreditar que se manteria anônimo sem levantar suspeitas, já que a comunidade de descendentes italianos em São Paulo é muito populosa. "Acredito que ele veio pelo tamanho da grande colônia italiana no Brasil. Ele era uma pessoa discreta", afirmou Patrícia. O paradeiro de Badalamenti foi descoberto pelas autoridades italianas depois que passou a retomar contatos com a máfia siciliana em uma tentativa de ajudar seu pai na prisão. Ele é filho do chefe da Cosa Nostra, Gaetano Badalamenti, que morreu na prisão nos Estados Unidos há alguns anos.

Extradição
Na Itália, ele responde a acusações de fraude, corrupção e associação mafiosa. Mesmo depois de preso, o mafioso ainda nega que seja Leonardo Badalamenti, de acordo com a Polícia Federal. Ele insiste ser brasileiro e comerciante. Como usava documentos falsos, vai responder a essa acusação na Justiça do Brasil. Ainda não há prazo para o julgamento do pedido de extradição à Itália no Supremo Tribunal Federal.
BBC/Globo on line

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