domingo, 12 de julho de 2009

Música inspira replantio de pau-brasil


RIO - Ele deu origem ao nome do Brasil. Atraiu europeus há 500 anos, que extraíram dele tinta vermelha para tingir tecidos da nobreza. Provocou conflitos entre portugueses e franceses por sua exploração. Acabou se tornando uma espécie rara da flora brasileira. Mas a árvore de que estamos falando, o pau-brasil, continua tendo propriedades únicas. Sua madeira é considerada a melhor do mundo para confecção de arcos para instrumentos de corda. Esta característica está estimulando seu replantio no Brasil.

Archetários (fabricantes de arcos) europeus e brasileiros se organizaram para criar um movimento para replantar o pau-brasil em áreas da Bahia e do Espírito Santo.

– Quando começaram a confeccionar arcos com pau-brasil, no século 18, ocorreu uma revolução no jeito de tocar os instrumentos de corda. Foi algo assim, como a invenção da guitarra elétrica – diz o cineasta Otávio Juliano, diretor do documentário A Árvore da música, que será exibido nesta segunda-feira na tenda do Museu da Vida, no campus da Fiocruz, às 9h30.

Acontece que a extração de pau-brasil em florestas é proibida no Brasil, uma vez que a espécie é considerada em extinção desde 1992. Por isso, os archetários se mobilizaram para fazer o replantio em áreas privadas para garantir matéria-prima para produzir seus arcos. É o caso do archetário brasileiro Marco Raposo, que produz 60 arcos por mês, no Espírito Santo:

– Começamos o plantio há 12 anos. Temos 7.500 árvores, algumas com mais de cinco metros – diz.

Assim como ele, archetários franceses também investem no replantio em áreas do sul da Bahia. São projetos que contam com chancela de instituições científicas, como o Jardim Botânico do Rio de janeiro.

– O problema é que conservar a espécie não é só plantar. É preciso definir que variantes genéticas precisam ser mais preservadas – diz o biólogo Harodo Lima, do Jardim Botânico.

A instituição carioca realiza há oito anos um projeto de catalogação e inventário das áreas de florestas com ocorrência de pau-brasil. O estado do Rio de Janeiro tem 14 destas áreas: na Serra da Tiririca e na Região dos Lagos. No município do Rio, há trechos de floresta com a árvore em Campo Grande, Sepetiba, Pedra de Guaratiba e até na Prainha, paraíso dos surfistas.

Existem ainda unidades de conservação federais e estaduais também na Paraíba e na Bahia, segundo o biólogo. Mas é muito pouco em relação às populações da espécie na época do descobrimento. O pau-brasil ocorria numa extensa faixa litorânea que vem desde o Rio Grande do Norte até o Sul do estado do Rio de Janeiro, na região de Angra dos Reis e Paraty.

A árvore sobreviveu em ilhas no meio da floresta degradada. Na Bahia, sua preservação foi maior, pois era usado para dar sombra às plantações de cacau, diz o biólogo do Jardim Botânico. Segundo historiadores, só no primeiro século após o descobrimento do Brasil, dois milhões de árvores foram derrubadas. Em 1550, segundo o explorador francês Jean de Lery, havia 100 mil toras de pau-brasil estocadas no Rio.

Os índios faziam a derrubada para trocar as toras por bugigangas com franceses e portugueses. Eles já conheciam as propriedades do pau-brasil: usavam a tinta e faziam arcos para caça. Agora, os arcos servem para dar uma sonoridade especial aos instrumentos.

Marcelo Gigliotti, Jornal do Brasil

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