Em futebolística se diz: Cada torcedor é um treinador em potencial. Em Italianística pode-se dizer: Cada italiano é o único italiano.Se existe algum italiano que não chore nem de raiva, não sei. Mas é certo que todo o italiano saber rir na hora certa, de forma única e diferente.
Pais riem dos filhos; filhos, dos pais; amigos, dos amigos; inimigos, inimigos; adversários, dos adversários; anticlericais, dos clericais; pecadores, dos beatos; virgens, de seus sonhos e esperanças; viúvas, de suas lágrimas e saudades...
O rir é de todos os povos. Mas, italiano é italiano. Como ele, só ele. O rir, sorrir, debochar, expandir, irar, raivar, praguejar, abençoar, animar e salvar italianos são diferentes dos demais povos.
O italiano mais ri do que admira, os semelhantes. Nem sempre, porém se dá o direito de rir dos outros, com medo que riam dele próprio. Como não existe alguém sempre triste, também não existe alguém sempre alegre. E aqui está o diferente do italiano: Transformar em risos momentos tristes, de desventura, de tragicidade... que o destino desviou de sua rota.
Ser italiano é saber rir de si mesmo. Cada italiano é a melhor risada do mundo. Todos podem rir de mim, basta que riam de mim por ser italiano, que eu rio com eles.
Floriano Molon, de Porto Alegre, ao lhe servirem numa festa um prato de grãos de uva com colherinha, gargalhou: Se me nono em me vedesse a magnar ua col cuciareto, el diria che son drio deventar mato!
Pelegrino Baldo, há anos sineiro em Ipê-RS, certa vez, ao puxar o sino, caiu o badalo, enfiando-se palmos no solo. Não percebendo o som, e sentindo leve a corda, reparou o acontecido e exclamou, rindo e contando a todos: Se no fusse stà sguelto, el me garia copà!
Em Veranópolis, a Picada del Gobo homenageia o alfaiate do mesmo apelido. Feio e corcunda. Um dia, vendo-se no espelho, de caranca, satirizou-se: Al manco ti, bruto can, te sì pi bruto de mi!
Ao final de uma procissão para pedir chuva, conta Pe. Antônio Lorenzato, ao desabar chuva abundante, os colonos pararam, foram à bodega e disseram: Agora não precisa mais rezar. Comeram, beberam, embebedaram-se e partiram para casa, esquecendo a cruz. Mas alguém, no meio do caminho de volta, se recordou. Precisava voltar, para buscá-la.
Em absoluto, diz o velho Lorenzatto: “Ciuchi come semo, chi che porta sto demònio de crose!”
Uma mãe teve longa enfermidade, exigindo constante presença de seu único filho, responsável da família. No dia em que foi sepultada, o filho, ao receber os pêsames de um seu compadre, consolou-se: Gràssia a Dio, ghemo fato anca questa! Al manco desso posso laorar volentiera.
Enfim, o italiano, seja brabo ou cordato, triste ou alegre, sério ou palhaço, trágico ou cômico... todos sabem, em todas as contas, tirar os noves-fora positivos da vida.
Isso o atesta o escritor Antônio Martellini, imigrante no Rio Grande do Sul, há poucos meses vivendo em São Paulo, que enviou este auto-retrato: Antonio Martellini, Romano e Abruzzese de origem; Italiano, Talian (abruzzese) e Brasileiro de fala, e tudo junto de coração, me descrevo em Talian, como aprendi no Rio Grande do Sul: A minha imagem é como a dos outros, belezas especiais não tenho, a não ser os bigodes longos, para coar os mosquitinhos do vinho! Força de caráter? - ainda menos. Coragem e abnegação? Um pouco abaixo de zero. Amor ao próximo? Como água morna. Como pessoa? - Creio-me uma pessoa normal de coração e cabeça. No mundo? A sorte me tirou fora da cama. Ela me colocou nas estradas do mundo sem me perguntar... Paixão? - A única é o lugarejo de meus avós, de onde vim. Esta é a minha Arcádia, onde me recolho, sempre que sinto necessidade de força interior para enfrentar as dificuldades e contrariedades da vida. Não creio ter sido um bom estudante, porque sempre com pouca paciência e perseverança. De uns tempos para cá, tenho em mente que o mais importante de tudo é viver, pensar, dizer e escrever aquilo que penso... Resultado econômico daquilo que escrevo? - Nenhum. Estou até disposto a pagar aqueles que estiverem dispostos a ler o que screvo, ao menos para saber todos os impropérios que me atiram. Minhas qualidades? Uma apenas: aquela de ser teimoso. Por isso estou vivo e vos escrevo!
Eis o retrato de um italiano, cidadão do mundo, porque impedido de ser cidadão de seu país.
Não importaram dificuldades, nostalgias, lágrimas, porque a teimosia lhe deu força de sonhar e fazer a cocanha, com a liberdade de viver, rir, cantar, esbravejar... para continuar sendo o mais legítimo italiano do mundo, o santo da irreverência.”
Frei Rovílio Costa
Texto publicado na Revista insieme@insieme.com.br, fev. 2002, p. 24-5Colaboração Mirna Lanius Borella Bravo - Porto Alegre - RS













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