sábado, 5 de abril de 2008

Genética e história se unem para revelar os garanhões da história


Um amigo meu, cansado de suas oportunidades sexuais limitadas, costumava brincar que todas as mulheres do mundo deviam estar na mão de algum macho alfa, esse ser mítico que monopoliza as fêmeas. “Cadê esse macho alfa? Acha esse desgraçado que eu vou encher ele de porrada”, dizia ele. Mais fácil falar do que fazer, lógico. A julgar pelo que a genética anda descobrindo, o macho alfa clássico não é exatamente um sujeito bonzinho, que levaria umas bolachas na boa. Na verdade, está mais para um Gêngis Khan – literalmente, aliás. Estamos falando das pistas deixadas pelos homens que, ao longo da história, foram os mais bem-sucedidos sexualmente, intrépido leitor.

Usando uma mistura fascinante de dados genéticos e históricos, os cientistas estão começando a encontrar sinais de que uns poucos machos alfa da nossa espécie conseguiram deixar muito mais descendentes do que o mortal comum poderia sonhar. Gêngis Khan é um desses pais de multidões – e, a exemplo dele, as demais figuras da lista não são lá muito agradáveis. Ao que parece, o poderio militar e econômico foi a principal ferramenta para monopolizar mulheres ao longo da história.

A marca do YA característica genética mais marcante dos seres humanos do sexo masculino ajuda muito os cientistas na hora de fazer essas estimativas. Trata-se do cromossomo Y, um dos dois cromossomos (estruturas enoveladas de DNA) ligados à definição do sexo na nossa espécie. Todos temos 23 pares de cromossomos; dentro de cada par, um cromossomo vem da mãe e o outro, do pai do indivíduo. Mulheres normais têm dois cromossomos X; homens normais, por sua vez, têm um X e um Y. A vantagem desse fato para a genética histórica é que o Y só é transmitido de pai para filho, numa sucessão ininterrupta ao longo de milhões de anos. E o Y quase nunca mistura (ou “recombina”, para usar o termo técnico) seu DNA com seu parceiro, o X. Ou seja, trata-se de um registro praticamente puro da linhagem paterna de um homem. Apenas as mutações ao acaso no material genético fazem com que um Y seja diferente do outro.

Tais mutações são passadas para os descendentes masculinos de qualquer macho, o que ajuda a rastreá-los com precisão nas gerações seguintes. Em tese, esses poucos fatos simples nos permitem reconstruir a linhagem do Y de todos os homens vivos hoje a um único “Adão” primitivo – um macho humano do passado distante cujo cromossomo deu origem a todos os existentes na população de hoje. As estimativas para a idade desse Adão variam – uma das mais recentes fala em apenas 60 mil anos –, mas isso não significa que o “primeiro homem” viveu nessa época, ou que só ele existia então. É que as linhagens do Y se perdem naturalmente ao longo do tempo. Basta pensar num sujeito que tenha dez filhas mulheres – e nenhum menino. A imensa maioria de seus genes estará preservada para a posteridade, mas seu Y terá desaparecido.

Hoje, quando os pesquisadores comparam o DNA de todos os homens para remontar ao Y ancestral, seria como o pai das dez garotas nunca tivesse existido – e isso influencia na estimativa de quando viveu o nosso “Adão do Y”. De qualquer maneira, o mesmo método também serve para estimar a origem de versões mais recentes do Y. Leva-se em conta a taxa mais provável de mutações ao longo do tempo, as diferenças e semelhanças entre o DNA dos cromossomos e voilà – é possível estimar uma data de origem comum, obviamente com uma margem de erro considerável.

Você provavelmente nunca ouviu falar de Niall dos Nove Reféns – afinal, não nasceu na Irlanda. Mas saiba que todo santo irlandês, britânico ou descendente de ambos com sobrenomes como O’Neill, O’Donnell e O'Reilly, entre outros, é tradicionalmente considerado um rebento da linhagem do velho Niall, que viveu no século V da Era Cristã. (O sobrenome O’Neill é simplesmente a forma modernizada de Uí Niall, ou “descendente de Niall”.) Niall era um típico chefe guerreiro celta, passando suas horas de lazer em expedições para capturar escravos ou extorquir chefes rivais (daí o apelido; os “reféns” eram usados para chantagear os inimigos). Pesquisadores do Trinity College, de Dublin, tiveram a idéia de verificar se essa montanha de sobrenomes realmente tem relação com a descendência deixada pelo senhor da guerra. Não deu outra. No noroeste da Irlanda, a base tradicional dos Uí Niall, nada menos que um quinto dos homens carrega uma assinatura genética em seu Y que pode ser remontada com razoável grau de precisão até a época de Niall. No oeste e no centro da Escócia, a proporção ultrapassa os 15%. E 2% dos homens nova-iorquinos – muitos dos quais descendentes de escoceses e irlandeses – têm o Y que parece ter pertencido a Niall. Os pesquisadores estimam que até 3 milhões de homens carreguem essa marca genética.

Um caso parecido foi identificado pela equipe de Chris Tyler-Smith, do Instituto Sanger (Reino Unido), entre homens do nordeste da China e da Mongólia. O normal na maioria das populações humanas, como Tyler-Smith me explicou certa vez, é que todo homem tenha uma “assinatura” quase única em seu cromossomo Y – o que mostra que ele descende de ancestrais masculinos que continuaram deixando descendentes devagar e sempre. Mas, nas amostras da região, ele e seus colegas acharam uma forma do Y com freqüência bem maior que a normal, chegando a 5% da população em algumas regiões. Ao estimar a origem desse Y – há cerca de 500 anos atrás, no nordeste da China –, Tyler-Smith e companhia acreditam ter achado uma correlação com Giocangga, o fundador da dinastia Qing, a dos últimos imperadores da China. Tanto no caso de Niall quanto no de Giocangga, a tradição de coabitar com inúmeras concubinas e os fartos recursos destinados aos filhos (bastardos ou não) dos governantes e seus familiares parecem ser suficientes para explicar esse sucesso reprodutivo desproporcional. No caso de Giocangga, enquanto a média dos homens de seu tempo teria 20 descendentes masculinos vivos hoje, os orientais que carregam seu Y são cerca de 1,5 milhão.

Ao que tudo indica, porém, ninguém ganha de Gêngis Khan. Usando os mesmos métodos, e com uma grande amostragem de homens (mais de 2.000 indivíduos de toda a Ásia, desde o Cáucaso até o Japão), Chris Tyler-Smith identificou o que chama de “aglomerado-estrela” – um grupo de variantes do Y muito próximas entre si, correspondente a cerca de 8% da amostragem. Origem estimada: cerca de 1.000 anos atrás, na Mongólia. E o único grupo do Paquistão no qual o aglomerado-estrela aparece é o dos hazaras – que se consideram descendentes do imperador bárbaro da Idade Média. Ao todo, Tyler-Smith calcula que 12 milhões de homens vivos hoje possam remontar seu Y a Gêngis Khan, ou Temujin (nome de “batismo” do líder guerreiro). Para o pesquisador britânico, a época e o local de origem, bem como os práticas do império mongol, apontam fortemente para Gêngis e sua família. O cromossomo nem precisa ter se originado precisamente com ele: pode ter surgido com seu avô ou outro ancestral próximo, sendo passado adiante sem muitas modificações desde então. Gêngis e seus descendentes eram adeptos da poligamia e obviamente não gostavam de usar camisinha, mas também estupravam sistematicamente as mulheres das populações conquistadas. Como os parentes do guerreiro pelo lado masculino (primos, tios etc.) também foram beneficiados e carregavam um Y provavelmente idêntico ao dele, o efeito foi multiplicado, e o mesmo vale para os descendentes do Khan, muitos dos quais também foram imperadores. “Eu diria que Genghis Khan é o exemplo mais extremo de algo que aconteceu outras vezes. Os homens têm uma tendência através da história a agir dessa forma quando as circunstâncias o permitem”, disse-me Tyler-Smith.

O curioso é que alguns dos grandes conquistadores da Antigüidade tirariam notas pífias no “teste Gêngis Khan”. Dois exemplos são Alexandre, o Grande e Júlio César – nenhum dos dois deixou descendentes masculinos. (Na verdade, o filho de Alexandre até sobreviveu ao pai, mas acabou sendo assassinado por um dos generais do rei macedônio.) Sugestão para o futuroCá entre nós, eu adoraria ver a técnica aplicada aos primeiros colonizadores do Brasil. Afinal, sujeitos como João Ramalho, o português que se aliou aos tupiniquins e ajudou a fundar São Paulo, viraram polígamos assim que puseram os pés aqui e tiveram uma multidão de filhos com suas esposas indígenas. O que nenhum desses superpais sabia, no entanto, é que ter tantos rebentos não era nenhuma garantia de imortalidade, como eles achavam. Fora o cromossomo Y, um pedacinho minúsculo do material genético humano, pouquíssimos genes desses sujeitos tão prolíficos continuam caminhando juntos. Isso porque, com a divisão do DNA pela metade antes da formação dos espermatozóides, a herança genética vai sendo cada vez mais fracionada de geração em geração. Tanto que, na quinta geração, seus descendentes tinham só pouco mais de 3% de seu DNA. Portanto, se um dia você descobrir que seu Y cai no aglomerado-estrela, não se preocupe: há pouco perigo de você sair por aí queimando vilarejos e agarrando donzelas.

Por Reinaldo José Lopes

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