sábado, 5 de janeiro de 2008

Os 70 anos de Adriano Celentano


No próximo domingo (6 de janeiro) toda a Itália festejará os 70 anos de Adriano Celentano, o mais famoso e influente cantor italiano da segunda metade do século XX, cuja carreira começou com a chegada do primeiro rock'n'roll e lhe conferiu um estatuto único na cultura do país, meio palhaço e meio profeta, sem nunca perder o afeto do público.

Em princípios dos anos 60, Celentano, que nasceu em Milão na popular via Gluck (que depois imortalizou em uma de suas canções), apresentava-se como uma mistura de Elvis Presley e Jerry Lewis: ao som do rock'n'roll que surgia, ele acrescentava um talento cômico natural, à base de trejeitos e ousados passos de dança, que lhe valeram a alcunha de "molleggiato" (literalmente, de grande molejo). É o Celentano do primeiro sucesso, "Il tuo bacio è come un rock" (1960), que foi eleito nesse mesmo ano por Federico Fellini para aparecer no "La Dolce Vita" (onde canta "Ready Teddy" de Little Richard) e no ano seguinte chega em segundo no Festival de Sanremo junto a Little Tony (outro clone local de Elvis) com "Ventiquattromila baci".

Depois de garantir sua popularidade pessoal, e para impor ao seu selo discográfico suas opções musicais e artísticas, Celentano lançou sua própria versão milanesa de "Rat Pack" de Frank Sinatra com o Clan, que reunia colegas, amigos e namoradas. Todos, de uma forma ou de outro, participavam dos projetos dos demais. Essa é a época de "Pregheró" (versão italiana de "Stand By Me" de Ben E.King), na qual aparecem pela primeira vez temas religiosos e o tom de pregador, que marcarão grande parte de sua vida artística. Desta fase também são dois de seus maiores sucessos: "Il ragazzo della via Gluck" (1966), rememoração do bairro de sua infância que antecipa suas preocupações ecológicas; e principalmente "Azzurro", a sua canção mais conhecida e sem dúvida uma das mais importantes da música popular italiana do século XX e que destoava vistosamente do estilo pop de então. Em fins dos anos 60, o ex-garoto rebelde do rock começou a ter problemas com a então hegemônica "cultura do protesto": primeiro com temas como "La coppia piú bella del mondo" (dueto com a sua futura esposa, Claudia Mori) em 1967 e "Tre passi avanti" e finalmente com o hino contra as greves "Chi non lavora non fa l'amore", com o qual venceu o Festival de Sanremo em 1970. Então já era claro que Celentano queria ser um artista totalmente independente e original, tanto artística como politicamente, como demonstrou sua carreira posterior, na qual não faltam sucessos que se anteciparam aos tempos, como "Prisencolinensinainciusol" (1972), possivelmente o primeiro rap italiano, e "Svalutation" (1976), uma espécie de funk italiano de protesto contra a política econômica do momento.

A partir do fim dos anos 70 e durante toda a década seguinte, Celentano foi mais conhecido pelos seus filmes do que pelos seus discos. Baseando-se no personagem construído para ele por Pietro Germi para "Serafino" (1969), o cantor interpretou uma série de filmes que foram muito populares na Itália, desde a fantasia surreal de "Yuppi Du" (1975) a "Joan Lui" (1985), passando por "Il bisbetico domato" (1980), com Ornella Muti. Depois de participar da 8ª edição do "Fantástico" em 1987, Adriano Celentano inaugurou uma nova versão de seu tradicional personagem, ao mesmo tempo carismático e áspero, simpático e polêmico: a do pregador televisivo, denunciante da corrupção e da desonestidade política, para alguns uma voz corajosa de protesto e para outros um demagogo católico quase reacionário. Seja como for, Celentano carregou consigo na TV o mesmo nível de sucesso que conheceu nas suas outras atividades: em 2005 o seu programa "Rockpolitick" bate recordes de audiência (mais de 16 milhões de espectadores em um de seus capítulos) e deflagra polêmicas em todo o país. Em novembro passado, o seu show de temática ecologista "A situação de minha Irmã não é boa" (onde a tal irmã é a Terra, em alusão a São Francisco de Assis) confirmou sua popularidade eterna. Popularidade que ultrapassou as fronteiras italianas: o diretor de cinema sérvio Emir Kusturica lembrou como "Celentano foi essencial para que o rock'n'roll fosse descoberto nos países do Leste, onde os discos americanos eram proibidos"; e o cantor britânico Ian Dury incluiu "Adry" Celentano no seu "Reasons To Be Cheerful" (Motivos para ser alegres).

Da Ansa

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